sexta-feira, 26 de setembro de 2025
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Lição 12: O que você semear, ceifará
Lição 12: O que você semear, ceifará
Gálatas 6.1-8.
INTRODUÇÃO
O apóstolo Paulo se detém no
início do último capítulo a tratar da forma como a verdadeira liberdade cristã
pode ser vivenciada na comunhão dos santos. Para isso, ele destaca os seguintes
pontos: como tratar um irmão que pecou? Como pensar o que é o correto sobre nós
mesmos para não nos enganarmos? Como ter cuidado com o que plantamos, pois
colheremos depois? São três pontos importantes que mostram, na prática, a
espiritualidade que Deus espera que tenhamos.
I. COMO TRATAR DOS
PECADOS DOS IRMÃOS
1. A possibilidade de
se cometer um pecado. Paulo nos diz que é possível que um irmão na fé
seja surpreendido praticando algo que desagrada a Deus. A descrição feita não
se refere a uma pessoa que vive pecando, ou que deliberadamente desobedece à
Palavra de forma costumeira. Aqui é tratado a respeito de um servo ou serva de
Deus que cometeu um erro, um pecado, mas que não era intencional.
A palavra “restaurar”, no grego, é katartizo, que trazia a ideia
de colocar no lugar um osso que havia saído do lugar. É certo que fazer isso
não é simples, e no mundo antigo poderia causar bastante dor, mas era
necessário para a restauração do corpo. Mesmo como cristãos, nascidos de novo,
precisamos da ajuda do nosso próximo em alguns momentos difíceis. A restauração
de um irmão que pecou e se arrependeu começa na Casa de Deus, na comunhão dos
santos. É certo que há casos em que a disciplina na igreja deve existir, e ela
é necessária, mas deve ter um caráter terapêutico. Se uma parte do nosso corpo
sofre um ferimento, tratamos dele, mas há casos em que um membro do corpo está
tão infeccionado que precisa ser amputado, pois não está respondendo aos
tratamentos que lhe estão sendo administrados.
2. O que define uma
pessoa espiritual? A vida espiritual do cristão é um tema muito
discutido na atualidade, no entanto, não é algo exclusivo do nosso tempo, ele
também era conhecido nos dias de Paulo. As pessoas buscam algo que lhes conecte
com Deus, ou com alguma outra divindade. Buscam reverenciar algo ou alguém que
lhes oriente, que lhes dê um senso de direção e um propósito de vida.
Um espírito de mansidão é apresentado por
Paulo nesta Carta como um sinal de espiritualidade. É provável que esse
conselho tenha mais importância em nossos dias, onde os meios de comunicação e
as redes sociais se tornaram um campo fértil para brigas, contendas e disputas.
Há crentes que amam a Jesus, mas se veem
envolvidos em um pecado e precisam passar por um processo de restauração.
Observe que o Senhor não ordena, através do apóstolo, para que o mundo ajude um
crente que pecou. Ele ordena que aqueles que são espirituais, a igreja, ajudem
esses irmãos que caíram. Pessoas livres em Cristo valorizam tanto a liberdade
que cuidam para que seus irmãos não só recebam os cuidados necessários se
pecarem, como também buscam restaurar à comunhão aquele que se arrependeu,
confessou e abandonou o pecado.
A nossa vida espiritual, aos olhos de Deus,
não é medida somente pelos nossos momentos com o Senhor, mas também pelos
nossos momentos com nossos irmãos. Gritarias, grosserias e maus-tratos vão na
contramão do que Deus planejou para a comunhão do seu povo.
3. Todos podemos ser
tentados. Ninguém está imune à tentação. “Olhando por ti mesmo, para
que não sejas também tentado” (v.1). Não basta perceber quando um irmão falha,
ou corrigi-lo com espírito de mansidão: é preciso que estejamos atentos,
vigilantes para não cairmos no mesmo pecado.
Se mesmo o Senhor Jesus, cheio do Espírito,
foi tentado por Satanás após ter jejuado, nós também podemos ser tentados em
diversas áreas.
Não se pode negar que o pecado tem uma força
destruidora, e que não estamos livres de, em algum momento, nos deixar levar
pela antiga natureza e pecar contra Deus. O pecado domina a vida dos não
salvos, e tenta demover dos santos a comunhão com o Senhor.
Irmãos podem corrigir uns aos outros. E a
igreja espiritual incentiva que os espirituais possam corrigir os seus irmãos
que falham.
Da mesma forma que um medicamento busca
tratar uma pessoa doente, somos chamados a tratar dos nossos irmãos que pecaram
e demonstram arrependimento e vontade de trilhar novamente o caminho da
comunhão com Deus e a igreja.
II. LEVAI AS CARGAS UNS
DOS OUTROS
1. Levai as cargas
uns dos outros. A palavra “carga” é a tradução da palavra grega baros, que traz a ideia de
um fardo. Não é a representação de um pecado, mas de uma pressão, uma provação.
Nem todos temos os mesmos desafios ou lutas. Há irmãos, em nossas igrejas, que
passam por situações difíceis, que se tornam verdadeiras cargas, acrescentando
peso na caminhada. Essas lutas podem ser uma doença na família, um desemprego,
um divórcio, um luto etc. É preciso que sejamos sensíveis com nossos irmãos, na
mesma medida em que desejamos ser compreendidos.
Quem leva as cargas uns dos outros cumpre a
lei de Cristo. Os judaizantes inseriram nas igrejas da Galácia a ideia da
circuncisão como o início da prática da Lei para os gentios, mas se esses
irmãos queriam mesmo cumprir a lei de Cristo (Gl 6.2), e não a de Moisés,
deveriam ajudar uns aos outros.
2. O que você acha de
si mesmo? É notório que temos, todos nós, uma imagem do que somos. É
possível que vejamos a nós mesmos de uma forma e Deus nos veja de outra.
Um dos elementos facilitadores da tentação é
a arrogância (Gl 6.3). É um cuidado que todos devemos ter, pois não raro,
acreditamos que somos mais do que realmente somos. É da natureza humana
pecaminosa a arrogância, e por isso devemos cultivar um espírito humilde.
Observe que Paulo apresenta esse pensamento através de uma hipótese: “Se alguém
cuida ser alguma coisa” (Gl 6.3). Ele se vale dessa premissa não para apontar
pessoas, e sim para que seus leitores olhassem para si mesmos e não fossem
descuidados.
O orgulho pode nos fazer pensar que somos
superiores aos outros, que merecemos muito mais do que nos é dado, ou que
estamos sendo preteridos no trabalho, nos estudos e até mesmo na igreja.
3. O que é instruído
na Palavra. Uma pessoa que é abençoada recebendo um ensino das
Escrituras deve ter uma mente e um coração aberto à generosidade, pois aquele
que o está instruindo passou tempo aprendendo, entendendo um conteúdo e se
esmerando em repassá-lo para que o seu aluno possa crescer diante de Deus. A
palavra instruir, no grego, é katecheo, de onde vem a palavra catecismo, que
significa “instruir”, ensinar.
Uma pessoa espiritual compartilha o que
possui com outras pessoas, e no caso do ensino bíblico, isso é uma ordenança:
“E o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o
instrui” (v.6).
Quem ensina precisa se qualificar, estudar,
aprender e usar o seu conhecimento para o crescimento do Reino de Deus.
Portanto, é justo que esse tipo de obreiro seja reconhecido na igreja e ajudado
a cumprir o seu ministério.
III. COLHENDO O QUE SE
PLANTA
1. Deus não se deixa
escarnecer. Pode parecer estranho Paulo dizer que Deus não se deixa
escarnecer para a igreja, mas foi necessário. Em nossos dias, o Eterno tem sido
apresentado erroneamente por alguns, como uma divindade boazinha, que existe
para ser acionada quando algumas pessoas se veem em problemas. Quantas
pregações têm sido veiculadas com o objetivo de mostrar um deus que obedece às
vontades humanas, que isenta os homens de seus pecados sem que haja
arrependimento. Mas esse não é o Deus da Bíblia.
Cremos na misericórdia do Senhor, na sua
presença quando invocado, e no seu poder de transformar situações, mas isso não
anula a nossa responsabilidade para com nossos erros.
A expressão “não erreis” deixa claro que quem
pensa que plantará na carne e colherá frutos no espírito está agindo fora do
conhecimento natural e espiritual.
2. Plantando e
colhendo (v.7). O que o homem semear, isso haverá de colher. A lei da
semeadura é opcional, mas a da colheita é obrigatória. Paulo não fala aqui da
simples ação da natureza levando sementes pelo vento para serem depositadas em
terrenos férteis, como ocorre com certas plantas. Paulo aqui foca a ação do
homem ao plantar o que vai ser colhido no futuro.
Deve se ter em mente que há uma lacuna de
tempo entre a semeadura e a colheita. Nem sempre as nossas ações, sejam elas
boas, sejam elas más, terão frutos imediatos, mas esses frutos, um dia nos
alcançarão.
3. Carne e Espírito
como campos de semeadura. A carne e o espírito são terrenos
férteis para serem semeados. Não é sem razão que no capítulo 5 o apóstolo fala
acerca das obras da carne e o Fruto do Espírito: dois “terrenos” a que, se dada
a devida atenção, trazem seus frutos. Ao longo da Carta, ele usa as palavras
Carne e Espírito algumas vezes. Ele queria que os gálatas soubessem, e nós
também, que essa luta é real, diária e precisa ser levada a sério. Não basta
saber quais são as obras da carne e o Fruto do Espírito. É preciso tomar uma
decisão: semear na carne e colher as obras da carne ou semear no espírito e
colher o Fruto do Espírito.
CONCLUSÃO
Cuidar uns dos outros com misericórdia,
restaurar o irmão que pecou e vigiar no que semeamos são orientações de Deus
para os nossos dias. Há leis no mundo natural que não podem ser quebradas, e no
mundo espiritual vale o mesmo. Se desejamos ser tratados com misericórdia caso
pequemos, ajamos da mesma forma com aqueles que pecaram, conduzindo-os ao
arrependimento e à restauração.
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
Lição 11: A carne e o Espírito: a luta que existe em nós
INTRODUÇÃO
No capítulo 5, Paulo mostra que somos guiados ou pela carne ou pelo Espírito. Ele falou anteriormente a respeito do cuidado de não se valer da liberdade para que fosse dada ocasião à carne. Desta feita, o apóstolo menciona que existe uma luta dentro de nós para fazer o que é certo ou o que é errado, e que aqueles que são conduzidos pelo Espírito manifestam o Fruto, ao passo que os que são convencidos, em suas ações, a resistir ao Espírito e seguir a natureza humana, manifestam as obras da carne.
1. Andai em Espírito. Paulo já tratou sobre a importância da liberdade, e agora passa a mostrar aos gálatas o distanciamento que há entre viver na carne e ser guiado pelo Espírito (Gl 5.16). Observe que o verbo está no imperativo; aqui não é uma recomendação, mas uma ordem. O cristão deve entender que a única opção para que não cumpra os desejos da natureza humana é andar no Espírito. A íntima comunhão e a dependência constante das orientações do Espírito são a única chave para uma vida de santidade e integridade no Senhor. Não bastava que os gálatas valorizassem a liberdade que receberam de Cristo. Com essa liberdade, eles deveriam andar no Espírito. De nada adianta a liberdade se a pessoa permanece presa às práticas que ainda a identificam como prisioneira.
2. A luta que existe em nós. Há uma luta interior constante para que sigamos a vontade da nossa carne e não sejamos guiados pelo Espírito. A carne luta contra o Espírito, e esse, contra a carne (Gl 5.17). Não é uma luta visível, pois acontece no nosso íntimo, mas as consequências são. Essa luta nos mostra uma verdade: o Novo Nascimento não elimina a velha natureza pecaminosa. Se assim fosse, não veríamos nas Escrituras tantas advertências a que buscássemos a santificação e a mortificação constante do pecado em nós. Não é possível trazer satisfação às duas naturezas, então quem conhece a Cristo terá de escolher que natureza vai agradar e fortalecer. A carne representa a nossa natureza que busca satisfação naquilo que desagrada a Deus. Ela não desaparece nem morre quando uma pessoa recebe a Jesus pela fé e é perdoada de seus pecados. Esse texto também nos mostra que o Espírito pode e deseja nos guiar para uma vida mais plena em que manifestemos o Fruto do Espírito, que Paulo descreverá a seguir. Mas observe que Paulo mostra antes as obras da carne e a sua consequência (Gl 5.16-21). O Evangelho primeiro mostra que o homem é pecador. Depois da má notícia, vem a boa: existe salvação em Jesus. Da mesma forma, Paulo fala primeiro das obras da carne, para depois falar do Fruto do Espírito.
1. Prostituição, impureza, lascívia. As três primeiras obras
da carne estão relacionadas ao comportamento sexual (Gl 5.19). Deus nos fez
seres sexuais, mas o pecado faz com que o ser humano ultrapasse os limites
impostos por Ele.
A prostituição abarca todas as relações sexuais ilícitas, e
não somente a prática sexual por dinheiro. A prostituição torna o corpo impuro
aos olhos de Deus, e a lascívia é a sensualidade exagerada, um comportamento
que não se preocupa com a moralidade, onde a pessoa peca sem se preocupar com
qualquer vergonha.
2. Idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações. A
idolatria, de acordo com os Dez Mandamentos, é pecado. Esse erro coloca o que
foi criado no lugar do Criador. A palavra grega pharmakeia, era originalmente
utilizada para se referir a uma bebida que, se usada na medida certa, poderia
salvar a vida de uma pessoa, um remédio. Com o passar do tempo, foi sendo usada
para se referir a entorpecentes que conduziam pessoas a ter visões dos seus
deuses, e no Novo Testamento passou a ser como a feitiçaria, bruxaria. Já as
inimizades abrem a lista de pecados que afetam as relações interpessoais.
3. Iras, pelejas, dissensões e heresias. A ira é uma
manifestação de fúria, que pode tirar o controle do ser humano. As pelejas ou
discórdias buscam um poder pessoal. Dissensões são desentendimentos causados
por divisões. As heresias ou facções são originalmente divisões feitas para
separar pessoas. No Novo Testamento, essa palavra representava grupos, como os
fariseus e saduceus. A sua tônica é a categorização para a exclusão.
4. Invejas, homicídios, bebedices e glutonarias. A inveja é
o desejo de possuir algo que outra pessoa possui. O homicídio é fruto do pouco
ou nenhum apreço à vida de uma outra pessoa. Bebedices e glutonarias são abusos
do direito de poderem manter o corpo alimentado, onde a bebedice é a
consequência da ingestão de bebidas fortes, entorpecendo o corpo e o
pensamento, ao passo que as glutonarias eram costumeiramente presenciadas em
festas a outros deuses, onde a falta de domínio do apetite fazia os seus participantes
exagerarem de forma consciente na alimentação. Paulo também apresenta mais uma
exortação: Quem pratica essas coisas não herdará o Reino de Deus (v.21). Se
cremos que Paulo foi inspirado pelo Senhor em seus escritos, devemos crer
também que ele apontou o destino de quem vive na prática dessas atividades: o
Inferno. O fato de tratar a respeito desse assunto mostra a gravidade e o
perigo de se viver uma vida carnal.
1. Amor, gozo, paz. Se Paulo apresenta uma lista daquilo que
desagrada a Deus, ele apresenta igualmente uma lista de itens denominados de
Fruto do Espírito (Gl 5.22). Ele começa com o amor, a base para os demais
frutos, pois foi por amor que Deus enviou o seu Filho para morrer por nós,
pecadores. O gozo é uma alegria, um estado de satisfação que não depende de
circunstâncias externas. A paz é uma tranquilidade interna que é refletida na
harmonia entre relacionamentos. Esses três primeiros elementos vêm do relacionamento
do salvo com Deus, ao passo que os demais são cultivados na comunhão dos
santos.
2. Longanimidade, benignidade, bondade. Longanimidade é
sinônimo de paciência, de tolerância para ser resistente com as pressões da
vida e das pessoas. Benignidade é benevolência, uma forma de demonstrar um
trato amável com todos, mesmo com desafetos. Bondade é a generosidade na
prática.
3. Fé, mansidão, temperança. Fé, ou fidelidade em grego é
pistis, é sinônimo de confiabilidade, que é baseado em algo verdadeiro. Ter fé
é também ser fiel, confiável em todos os sentidos. A mansidão é agir com
brandura, mesmo que a ocasião permita que a ira seja a opção aceitável, levando
em conta que é possível se irar e não pecar. Temperança é domínio próprio, a
capacidade de ser vitorioso em relação aos desejos da natureza humana,
resistindo aos impulsos da tentação. Paulo deixa claro que aqueles que são de
Cristo crucificaram a carne (Gl 5.24). As obras que antes faziam não poderiam
ser vistas na nova vida que receberam pela fé em Jesus. Eles eram livres em
Cristo para não pecar, como faziam antes; e completa dizendo que se eles viviam
no Espírito, andassem no Espírito também (Gl 5.25). É impraticável uma pessoa
alegar que vive no Espírito e trilhar caminhos que são contrários à direção
dEle. Os judaizantes tentavam ensinar os gálatas a que dependessem da carne,
mas as consequências dessa dependência eram opostas ao pretendido por Deus.
Paulo os ensina a que vivam no Espírito. Viver andando na carne conduziria os
gálatas ao Inferno.
CONCLUSÃO
“Contra essas coisas não há lei” (v.23), é o que Paulo escreve ao concluir a descrição do Fruto do Espírito, ao passo que também mostra que aqueles que praticam as obras da carne não herdarão o reino de Deus. Enquanto estivermos neste mundo teremos uma luta diária dentro de nós, que nos obrigará a inclinar nosso pensamento e ações que agradarão a Deus ou à natureza humana. Essa responsabilidade de escolha é nossa, como também as recompensas relativas a cada direção que tomamos.
quinta-feira, 4 de setembro de 2025
Lição 10: A liberdade que Cristo nos deu
Gálatas 5.1-9.
INTRODUÇÃO
Nesta lição, Paulo trata de uma situação em que é preciso
fazer uma escolha: ou os gálatas criam em Cristo e viviam pela fé, ou se
firmavam na circuncisão. Ele mostra que a liberdade que conseguiram em Cristo
pode ser retirada quando eles decidem substituir o Evangelho de Jesus, que
receberam pela fé, pela guarda da Lei, de preceitos que não lhes foi ordenado
guardar. Os falsos ensinos tinham suas consequências. Os gálatas estavam caindo
da graça, brigando uns com os outros e dando ocasião à carne.
I. A CIRCUNCISÃO TEM ALGUM VALOR?
1. Estejam firmes na liberdade. Paulo orienta que os gálatas
sejam firmes, não vacilantes, na liberdade que receberam do Evangelho (Gl
5.13). Era como se eles devessem assumir uma posição fortificada, e por ela
lutassem. Essa posição era a liberdade ofertada por Cristo, que corria o risco
de ser perdida caso aderissem de vez à Lei de Moisés e desprezassem o ensino do
apóstolo. Toda a pregação de Paulo estaria em risco por conta do desvio
doutrinário trazido por legalistas.
A perseverança era mais do que ter uma atitude diante de
outras pessoas. Era também uma convicção que deveriam ter, de forma pessoal,
pois haviam sido libertos por Cristo e tinham, pelo Evangelho, a liberdade de
serem considerados filhos de Deus.
2. Não se coloquem debaixo de servidão. Ganhar a liberdade é
difícil, mas perdê-la é fácil. Deus pôs em liberdade os filhos de Abraão
retirando-os da escravidão egípcia, mas quando chegaram à Terra Prometida, por
se esquecerem de Deus, acabaram sendo subjugados pelos povos que não expulsaram
daquela terra. Nos dias de Paulo, os romanos subjugavam não apenas Israel, mas
também outros povos conhecidos. Os gálatas mesmo tinham os romanos como
senhores, e sabiam que a “liberdade” que tinham não era completa.
Ao ensinarem sobre a Lei de Moisés como um adicional à graça
de Deus, os judaizantes acrescentavam culpa à vida dos gálatas, pois se esses
não cumprissem os 613 mandamentos que a Lei possuía, então, por causa de uma
única transgressão a um único mandamento, esses gálatas seriam condenados pela
Lei toda.
Esse é o resultado de trocar o Evangelho pelas obras e pelo
esforço próprio. Eles estavam entrando em uma dívida impagável, que por sinal,
Cristo já havia quitado. Outra observação é a de que Paulo os responsabiliza
pelo abandono da liberdade para se colocarem sob servidão.
3. Guardar a Lei obriga o crente a guardá-la toda. O padrão
da Lei é altíssimo, e quando uma pessoa não consegue guardá-la por completo,
ela se coloca debaixo de uma maldição. Isso estava acontecendo com os gálatas:
por acrescentarem ao Evangelho a guarda da Lei, eles estavam se colocando
debaixo de uma servidão não somente desnecessária, mas não planejada por Deus.
É possível que os gálatas pensassem que, por viver uma vida
antes desregrada, poderia ser interessante se submeterem a um conjunto de
regras que lhes desse uma identidade, um direcionamento. Entretanto, a guarda
da Lei era um peso até mesmo para os próprios judeus. Pedro, em uma reunião com
outros líderes, reconheceu isso quando fariseus crentes exigiram a circuncisão
dos gentios que aceitaram a Jesus: “Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo
sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós podemos
suportar?” (At 15.10).
O problema era o pecado que a Lei revelava naqueles que a
guardavam. O que Paulo nos mostra é que os judaizantes ensinavam a circuncisão
como algo obrigatório, mas que os gálatas tinham a opção de não a fazer: “se
vos deixardes circuncidar” (Gl 5.2). Cabia aos crentes não caírem naquele
problema. Se guardassem os mandamentos do Senhor, não precisariam passar por
uma cirurgia dolorosa e desnecessária. Mais que isso, Deus tinha como objetivo
tratar com corações de carne, e não com uma marca na pele dos homens. Quantos
problemas podemos evitar se simplesmente observarmos a Palavra de Deus e
decidirmos atender ao que estamos aprendendo? Os gálatas é que decidiriam por
essa situação.
II. O FERMENTO LEVEDA TODA A MASSA
1. Separados de Cristo. Guardar a Lei implicava uma
matemática estranha: crer em Jesus e fazer a circuncisão. O resultado dessa
conta era invalidar o sacrifício de Jesus e se colocar debaixo de uma
escravidão.
Como membros do Corpo, os gálatas, que deveriam estar
ligados a Jesus, mas estavam se separando dEle, e um membro separado do corpo
morre. Aceitando a Lei, os gálatas renunciavam a graça. Não dava para ter os
dois. Esse não era o plano de Deus.
2. Corriam bem. No mundo grego, a corrida era um esporte
bastante praticado por atletas e soldados. Não tinha um custo financeiro alto,
mas exigia do atleta força e resistência. Não bastava ter musculatura, era
preciso saber respirar e manter a respiração condicionada ao movimento de
projetar o corpo para a frente, continuamente e por um longo tempo, até chegar
no destino proposto. Os gálatas corriam bem, diz Paulo. Mas eles pararam.
Alguém lhes tirou o fôlego, acrescentando um peso desnecessário.
O que eles não perceberam era que, ao aceitar um pequeno
“corte de pele”, no próprio corpo, estavam depositando, sem perceber, a sua
confiança em ações humanas. Isso implicava parar de confiar em Jesus.
Um acontecimento olímpico público pode nos fazer entender o
que Paulo diz. O atleta brasileiro Vanderlei Lima corria em 2004 nos jogos
olímpicos de Atenas, quando, faltando 7 km, e estando em primeiro lugar na
disputa, foi empurrado e segurado por um homem que assistia à corrida, e
fazendo com que ele perdesse a vantagem diante dos seus competidores. Ele
concluiu a corrida em terceiro lugar, e posteriormente foi homenageado com a
medalha Pierre de Coubertin, uma honraria concedida aos que demonstram resistência
e ética nas atividades esportivas. Esse exemplo nos mostra que fatores externos
podem influenciar negativamente a nossa corrida para a eternidade. Pior do que
ser parado, os gálatas estavam desobedecendo à verdade do Evangelho (Gl 5.7).
3. O fermento. O fermento biológico é um agente levedante
que possui micro-organismos vivos, e que uma vez inserido numa massa, faz com
que ela cresça. Ele transforma a condição da massa, aumentando seu volume por
meio da fermentação. Na culinária é um excelente recurso para a fabricação de
pães e bolos, mas é igualmente uma referência a um elemento que distorce
descontroladamente o ambiente em que foi inserido.
O fermento dos judaizantes havia sido colocado entre os
gálatas e estava crescendo. Uma pitada de uma doutrina errada tem a capacidade
de distorcer não só o entendimento dos santos sobre as coisas de Deus, mas pode
distorcer também a prática cristã.
III. LIBERDADE X CARNALIDADE
1. A condenação dos falsos ensinadores. “Eu quereria que
fossem cortados aqueles que vos andam inquietando (v.12)”. Há um ditado popular
que ilustra essa sentença: “o mal se corta pela raiz”. Paulo mostra que os
perturbadores dos gálatas seriam condenados. Eles não ficariam impunes, pois
estavam atrapalhando o Evangelho com uma mensagem legalista.
2. Dando ocasião à carne. Outro perigo pelo qual aquelas
igrejas passavam era dar ocasião à natureza humana por observarem a Lei. Paulo
fala que a liberdade que receberam não poderia ser utilizada para que a carne
prevalecesse. Os gálatas deveriam se valer da liberdade que ganharam em Cristo
para servirem melhor a Deus e uns aos outros: “Não useis, então, da liberdade
para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor (v.13)”. O
serviço cristão é um ponto forte da vida de fé, pois é necessário que tenhamos
comunhão uns com os outros. Escravos brigam entre si. Filhos ajudam-se uns aos
outros.
3. O cuidado de uns para com os outros. A prática da
liberdade cristã nos impulsiona a cuidar uns dos outros. Se os gálatas
desejavam guardar a Lei, que se lembrassem do mandamento “Amarás o teu próximo
como a ti mesmo”. Parece que na Galácia os judaizantes conseguiram não somente
atrapalhar o entendimento da salvação pela graça, mas também gerar conflitos
entre os irmãos, pois Paulo escreve: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns
aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros (v.15)”. Como crianças
que estão em um momento de descontração e poderiam fazer muitas coisas juntas,
decidem brigar umas com as outras porque não querem esperar a sua vez ou por
discordarem de uma atividade em conjunto. A liberdade mal direcionada e mal
vivida pode trazer a destruição.
CONCLUSÃO
É possível que o legalismo tenha atraído pessoas e feito com
que pensassem que eram mais santas e serviam melhor a Deus, mas Paulo nos
mostra que se o Espírito Santo não agir em nossas vidas, de nada servirá
guardar regras. Praticar as obras da Lei era pegar um desvio que os levaria
para fora do caminho pretendido por Deus. Somos livres para andar no Espírito,
ser guiados por Deus e usufruir das bênçãos da salvação e da adoção de filhos
que recebemos, e não podemos trocar essas graças por práticas que vão exaltar a
nossa humanidade e diminuir o poder do sacrifício feito pelo Senhor em nosso
lugar.
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
Lição 9: Filhos de Deus e a descendência de Abraão
“Mas nós, irmãos, somos filhos da
promessa, como Isaque.” (Gl 4.28).
INTRODUÇÃO
A lição desta semana é a respeito da história apresentada por Paulo sobre Ismael e Isaque, os dois filhos de Abraão. Ele fala da escravidão e da liberdade, representadas pelos dois filhos, onde a escravidão é a perda da liberdade e da identidade. Os gálatas deveriam compreender que a liberdade que receberam em Jesus estava sendo colocada em risco por conta da decisão deles, de se sujeitarem aos ensinos dos judaizantes.
I. O QUE A LEI DIZ
1. Paulo se vale da história. A fim de reforçar seu argumento, o apóstolo mostra aos gálatas a diferença entre ser escravo e ser livre. Ele começa com a seguinte pergunta: “Dizei-me vós, os que quereis estar debaixo da lei: não ouvis vós a lei” (v.1)? Em outras palavras, “Já que vocês querem viver debaixo da Lei, ao menos vejam o que ela diz”. Então ele partilha a história dos dois filhos de Abraão.
A Palavra de Deus nos informa que Abraão teve diversos filhos além de Isaque e Ismael (Gn 25.1-7), mas somente os dois primeiros são utilizados por Paulo para realizar a comparação necessária. Esses dois filhos e suas histórias estão imersos em um contexto específico, a saber, Ismael nasceu de um arranjo social, e Isaque, da promessa de Deus. No tocante à origem social, um era escravo, e o outro livre, pois a mãe de Ismael era uma serva de Sara, ao passo que Isaque era filho da esposa de Abraão, uma mulher livre.
2. O significado de ser escravo.
No mundo do primeiro século, no Império Romano, a escravidão era bem conhecida.
Milhões de pessoas foram feitas escravas por causa de guerras, de dívidas, ou
porque nasceram filhos de escravos. O escravo era simplesmente uma pessoa que
não tinha direito sobre a própria vida. Sua vida e morte residiam nas mãos do
seu proprietário. Trabalhavam sem direito ou garantia alguma, até à morte, ou,
em alguns casos, até que o seu senhor lhe concedesse a liberdade, sendo que,
neste caso, o escravo agora livre, passava a ser chamado de liberto. Os gálatas
conheciam bem essa realidade. Os anos de dominação dos romanos mostravam a
vocação que tinham de dominação e de sujeição dos povos conquistados. As tropas
romanas situadas nas diversas metrópoles do império estavam lá para lembrar
quem eram os senhores e quem eram os vassalos.
3. A busca pela liberdade. Paulo
se utiliza da história de Abraão para ilustrar o que os gálatas precisavam
saber. Ele é chamado de pai da fé, mas é dele que também procedem os judeus. O
patriarca era casado com Sara, e a promessa de ser uma grande nação foi dada a
ambos, não somente a Abraão. A genética repassada do patriarca aos seus
descendentes seguia uma linha de muitos séculos, onde, por vezes, os hebreus se
viram dominados por outros povos. Eles sabiam a importância de serem livres, e
no primeiro século não desfrutavam ainda de plena liberdade.
II. O FILHO DA CARNE E O FILHO DA PROMESSA
1. A carne e seu filho. A comparação que Paulo faz com referência a Ismael, o primeiro filho de Abraão, como sendo o resultado não da fé ou da promessa, mas como sendo um arranjo de uma decisão baseada em um pensamento humano diante da impaciência. A ideia partiu de Sara, que seguiu um costume de sua época, em que uma escrava poderia dar um filho ao seu senhor.
Ninguém poderia negar que Ismael era filho de Abraão. Entretanto, ele representa um arranjo humano, uma forma de antecipar a realização da promessa de Deus. Sempre teremos dificuldades quando tentarmos ajudar Deus a cumprir o que Ele, de bom grado, nos prometeu.
Hagar enquanto estava grávida
desprezou sua senhora, e depois Sara ordenou que Hagar fosse embora. Ambas se
irritaram e competiram, e Abraão estava nesse fogo cruzado. Uma criança nasceu,
mas não segundo a vontade de Deus. Paulo vai, por analogia, dizer que Ismael é
o filho gerado pela carne. Ele não faz essa declaração com desprezo, pois seu
objetivo é exemplificar aos gálatas a diferença entre confiar na carne e
confiar na promessa de Deus.
2. A promessa e seu filho. Isaque
foi chamado de “filho da promessa”. Apesar da incapacidade de Abraão e Sara de
poderem experimentar a paternidade e a maternidade durante décadas, Deus lhes
havia feito uma promessa. Abraão seria pai de uma multidão de pessoas, e Sara,
a mãe. Sara deu a ideia a Abraão de tomar uma escrava para ser mãe, mas, mesmo
assim, Deus não retirou o que havia dito para com a esposa de Abraão, pois a
fidelidade do Eterno é inquestionável. Ismael podia ser o mais velho
biologicamente, mas ele não estava vinculado à promessa de Deus. Isaque foi
dado a Abraão e Sara como garantia de que Deus cumpre o que promete. É à
descendência de Isaque, e não de Ismael, que os crentes seriam associados.
3. O escravo persegue o livre. A Palavra de Deus nos diz que no momento da cerimônia em que Isaque, o filho da promessa, foi desmamado, Ismael zombou dele (Gn 21.8.9). Da mesma forma que Hagar quando engravidou zombou de Sara, Ismael o faz com Isaque. Aqui temos duas lições. A primeira é a do exemplo: crianças aprendem com o que veem e ouvem dos pais. Elas simplesmente reproduzem as atitudes dos pais, mesmo sem entender completamente o que fazem. A segunda lição é a de que quem tem liberdade dentro de casa pode ser perseguido por quem não a tem. Foi o que aconteceu com os gálatas. Nasceram livres, mas estavam sendo colocados debaixo de servidão pelo discurso dos judaizantes. A cena ocorrida séculos antes estava se repetindo.
Os judaizantes também tinham
ouvido o Evangelho primeiro, mas por se prenderem a aspectos da Lei mosaica,
esqueciam do seu verdadeiro Messias, Jesus, e se colocavam sob escravidão mais
uma vez. E agora, estavam induzindo os gentios nesse mesmo caminho.
III. A SOLUÇÃO PARA ESSE CONFLITO
1. Lança fora a escrava e seu
filho. Sara ofereceu Hagar a Abraão para que ela pudesse ser mãe. Abraão não
questionou a ideia da esposa. Hagar engravidou e desprezou Sara, que mandou a
escrava embora. Hagar encontrou um anjo no caminho que a ordenou que voltasse
para se humilhar diante de Sara. Todos, exceto o anjo, agiram sem pensar.
2. Somos filhos da livre. Ao
qualificar Ismael como filho da carne, Deus não lhe privou de bênçãos, mas não
deu a ele as mesmas que deu a Isaque (Gn 21.13).
As palavras de Sara nos mostram a
consequência de uma inimizade, e ao mesmo tempo, uma solução para os gálatas:
Eles deveriam lançar fora os judaizantes e seus ensinos, e viverem como
verdadeiros filhos de Abraão segundo a promessa de Deus. Por qual motivo? Os
gálatas eram, da mesma forma que Isaque, filhos da promessa: “De maneira que,
irmãos, somos filhos não da escrava, mas da livre” (Gl 4.31).
3. Não tornem a ser escravizados.
Paulo nos dá duas ordens aqui: Estejam firmes na sua liberdade, e não se
coloquem debaixo de servidão. Na primeira observação, ele ordena que a
liberdade que receberam em Cristo seja defendida a todo custo. Na segunda, ele
aponta que era possível os gálatas serem escravizados, não por uma força
militar externa, ou como despojo de guerra, ou por causa de uma dívida, coisas
comuns para a escravidão naquela época. O que Paulo mostra é que os gálatas
estavam se sujeitando voluntariamente à perda da liberdade. Por isso ele diz
que eles não se sujeitem à escravidão que a Lei e os judaizantes estavam lhes
imprimindo.
CONCLUSÃO
A comparação que Paulo faz sobre
Ismael e Isaque foi esclarecedora para os gálatas e o deve ser também para nós.
Pode haver dois filhos, mas só um era de acordo com a promessa. Em Jesus, somos
filhos da promessa de Deus a Abraão, e não dependemos da Lei para ser
conduzidos a Deus. Por fim, cabia aos gálatas entenderem que não deveriam se
colocar debaixo de um jugo de servidão, pois deixariam de ser livres em Cristo
para serem servos da carne.
sexta-feira, 22 de agosto de 2025
Lição 8: Filhos e herdeiros
“Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho,
és também herdeiro de Deus por Cristo.” (Gl 4.7).
RESUMO DA LIÇÃO
A maturidade exige de nós um comportamento diferenciado, pois por ela recebemos a herança em Cristo.
Gálatas 4.1-7.
INTRODUÇÃO
Vimos na lição anterior que Paulo tratou a respeito da
descendência de Abraão: todos os que creem em Jesus pela fé, quer sejam judeus,
quer sejam gentios. Nesta lição, trataremos a respeito da maturidade. É ela que
faz o herdeiro menino se tornar um herdeiro completo e apto para receber a
herança. Ao se colocarem debaixo da Lei, os gálatas estavam não somente se
colocando num caminho de retrocesso para com o Evangelho, mas estavam
igualmente renunciando à sua maturidade e sua herança em Cristo.
I. HERDEIRO, MAS COMO SE NÃO FOSSE AINDA
1. Herdeiro, mas como escravo. Paulo começa dizendo que “todo o tempo em que o herdeiro é menino, em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo” (Gl 4.1). Nesse texto, podemos ver a importância da maioridade. Ainda que uma criança fosse considerada herdeira, não é diferente de um escravo enquanto não atingir a maioridade. À medida que a criança vai crescendo e se desenvolvendo, ela vai se tornando menos dependente do aio (daquele que a conduz e que exerce sobre ela uma tutela, uma guarda). A criança não é uma escrava, mas é “considerada” como se fosse, em relação a herança, até que atinja a maturidade.
Paulo comenta que o herdeiro, enquanto menino, por mais que
seja dono de tudo, não tem acesso à herança e não possui diferença de um
escravo. Falta a ele a maturidade que só o tempo poderá trazer. Um comentarista
diz que aquela criança era chamada de “jovem senhor”, sendo “senhor” porque um
dia, na maioridade, poderia usufruir dos bens e direitos que lhe seriam
entregues, e “jovem” para não se esquecer que sua hora não havia chegado e se
colocar no seu lugar. Mas a hora da sua maioridade chegaria, e ele poderia
usufruir dos seus bens e títulos.
A função da Lei era conduzir as pessoas a Cristo, da mesma
forma que o aio conduzia a criança até a escola e se responsabilizava pela sua
educação (Gl 4.3).
2. Na plenitude dos tempos. O momento da história humana em
que Deus interveio para transformar uma promessa em um fato consumado é chamado
de “plenitude dos tempos”. Nesse período específico, Deus enviou a Jesus, e o
apóstolo ainda reforça: “nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4). Essas
duas colocações têm importância pois, mostram não somente a humanidade de
Jesus, mas igualmente o fato de que por ter nascido sob a Lei e tê-la cumprido
até a morte, seu sacrifício foi único e perfeito, colocando a salvação
disponível a todos que creem, independentemente da sua cultura de origem.
Paulo destaca que foi Deus que enviou seu Filho do Céu para
este mundo. Essa vinda fazia parte da promessa dada a Abraão, de que nele,
todas as famílias seriam benditas. A bênção de Deus não estaria restrita aos
descendentes de Abraão que guardavam a Lei. Essa bênção seria dada, pela fé,
aos que cressem no sacrifício de Jesus.
3. Remir os que estavam debaixo da Lei. A vinda de Jesus foi
para remir os que estavam debaixo da Lei. Remir é comprar novamente. Paulo aqui
nos mostra que as ações de Deus sempre têm um propósito. Nessa remissão Jesus
pagou a nossa dívida, e com seu sangue, nos comprou para Deus (Ap 5.9).
Certo estudioso comentou que os judeus dos tempos de Jesus,
de forma geral consideravam a Lei como “um capataz cujas ordens precisavam ser
obedecidas por temor à penalidade decorrente da infração”. Ela é o paidagogos,
responsável por preparar e levar as crianças de uma família para a escola, onde
seriam entregues ao “mestre-escola”. Uma vez entregue as crianças ao
mestre-escola, a responsabilidade do paidagogos estava concluída. Nada mais há
de ser feito por ele.
Professor(a), explique que a “expressão ‘servir de aio’
traduz a palavra grega paidagogos, da qual deriva a palavra pedagogo (isto é,
professor, educador, guardião). Nos tempos do Novo Testamento, isto era uma
referência ao servo pessoal que acompanhava o filho de um senhor, onde quer que
o filho fosse — inclusive à escola — agindo como guardião e exercendo
disciplina sobre a criança. Este papel era mais o de uma babá, do que o de um
professor. O propósito da lei de Deus, durante algum tempo, foi guiar o povo
nos caminhos de Deus, proteger o seu comportamento e dar disciplina. Mas o
propósito supremo da lei de Deus é revelar o pecado, expor a nossa própria
incapacidade de viver em conformidade com o padrão perfeito de Deus e nos
mostrar a nossa necessidade de Cristo e da sua obra de salvação espiritual.
4.2 TUTORES E CURADORES ATÉ AO TEMPO DETERMINADO PELO PAI. A
declaração que Paulo faz aqui é usada, principalmente, para mostrar a situação
de um crente sob o concerto do Antigo Testamento (isto é, a maneira de manter
um relacionamento com Deus com base nas leis e sacrifícios do Antigo
Testamento, antes que Cristo fizesse o sacrifício perfeito pelo pecado com a
sua própria vida). No entanto, o princípio desta passagem também indica que os
pais piedosos normalmente supervisionavam a instrução de seus filhos (veja Dt
6.7). Esta supervisão seria feita por meio da educação na própria casa ou
colocando as crianças sob os cuidados e a instrução de professores piedosos. As
Escrituras ensinam claramente que os pais devem fazer tudo o que puderem para
assegurar que seus filhos recebam uma educação centrada em Deus e que honre a
Cristo, em todos os aspectos da vida, começando no lar”. (Adaptado de Bíblia de
Estudo Pentecostal para Jovens. Rio de Janeiro: CPAD, 2023, p.1630).
II. A NOSSA POSIÇÃO EM DEUS
1. Somos filhos e herdeiros. Antes os gálatas serviam aos ídolos, pois não conheciam a Deus. Mas agora, eles haviam sido salvos, e não foram deixados à própria sorte. Eles foram recebidos como filhos (Gl 4.6). Paulo prossegue dizendo que somos filhos e herdeiros, coisa que um escravo não é. Pelo Espírito Santo, os gentios poderiam chamar Deus de “paizinho”, não uma expressão que remonte a ideia de um diminutivo, mas sim de intimidade. Os gentios agora, em Cristo, obedecem a Deus para agradá-lo, e não porque podem ser punidos, como os ídolos faziam com aqueles que os adoravam. Mas essa nova posição para os gálatas estava sendo abalada: “como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos” (Gl 4.9,10).
2. Guardando preceitos e regras. Eles eram filhos e
herdeiros de Deus pela fé, mas observando a Lei de Moisés, estavam como que
voltando à época em que serviam a ídolos. Mais que isso, eles passaram a se
preocupar com a guarda das festas hebraicas e os dias santos, uma regra para
que a cultura judaica fosse prolongada entre os gentios. Eles aprenderam com os
judaizantes a guardar rituais que se iniciavam com datas importantes do
judaísmo. O que comer, o que não comer, não deixar de celebrar tal data. Na prática,
pouca diferença tinha o legalismo do paganismo, dos ídolos que antes os gálatas
adoravam.
3. Fraqueza de Paulo quando esteve com os gálatas. Paulo
relembra seus leitores que esteve com eles em fraqueza, uma forma de dizer que
estava acometido de uma enfermidade. E por que ele faz isso? Diferente de
pessoas que ensinam que quem serve a Deus não pode ficar doente, ou se está, é
porque cometeu algum pecado ou porque não tem fé, Paulo nos permite entender
que estamos sujeitos às mazelas deste “corpo de humilhação” (Fp 3.21). Ele
acrescenta: “E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na
minha carne” (Gl 4.14). Os gálatas tinham um coração aparentemente disposto à
generosidade e à misericórdia, tanto que “se possível fora, arrancaríeis os
olhos, e mos daríeis” (Gl 4.15) A receptividade dos gálatas foi relembrada para
mostrar que Paulo não lhes era um oponente. Ele tinha gratidão pelos gálatas.
A graça de Deus, pregada pelo apóstolo, foi suficiente não
só para alcançar seus ouvintes, mas igualmente poderosa para que eles
recebessem a Paulo como um mensageiro de Deus, mesmo quando estava adoecido. E
os judaizantes estavam se aproveitando dessa boa vontade dos gálatas para
semear entre eles a desobediência.
III. MATURIDADE E RESPONSABILIDADE
2. O zelo inconveniente. Nem toda demonstração de zelo é do
Espírito. É possível que haja na igreja pessoas que apresentam o que seria tido
por um comportamento aceitável diante de Deus, mas sem o aval dEle. O zelo dos
judaizantes não era espiritual, mas religioso, e esses dois zelos são
diferentes. O zelo espiritual se preocupa com a vida espiritual das pessoas de
uma congregação, ao passo que o zelo religioso se prende ao formato como a
religião é manifesta. Eles queriam aumentar a sua influência entre os gálatas
demonstrando um zelo religioso, e isso era contrário ao Evangelho: “Eles têm
zelo por vós, não como convém; mas querem excluir-vos, para que vós tenhais
zelo por eles” (Gl 4.17). O zelo dos judaizantes era inconveniente.
Paulo era contrário ao zelo espiritual? De forma alguma. Ele
diz: “É bom ser zeloso, mas sempre do bem e não somente quando estou presente
convosco” (Gl 4.18). Ele não estava ali com os gálatas, mas demonstrava, mesmo
à distância, o zelo espiritual que marcava o seu ministério.
3. A maioridade exige responsabilidades. Crescer implica ter
responsabilidades. Uma pessoa que atinge a maioridade tem obrigações das quais
não pode se esquivar. É possível que uma pessoa tenha direito à herança, mas
não possa possuí-la devido à idade. Os gálatas já tinham conhecido Jesus, e com
o Senhor, a maturidade. Agora estavam se colocando como crianças, sendo guiados
pela Lei, e considerados sem acesso à herança. A maturidade tem por preceito a
diferenciação da infantilidade. Um adulto não pode agir como criança, como se
precisasse passar por todo o processo de crescimento e amadurecimento. De um
adulto se espera diversas características, como: inteligência, experiência,
responsabilidade por seus atos, seriedade e conhecimento. Não esperamos isso de
uma criança, que ainda está em desenvolvimento e não possui essas competências.
CONCLUSÃO
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Lição 7: A promessa que não pode ser revogada
“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.” (Gl 3.26).
RESUMO DA LIÇÃO
A promessa de Deus não pode ser revogada pela Lei, pois Deus
não se contradiz.
TEXTO BÍBLICO - Gálatas 3.17-24.
INTRODUÇÃO
Nesta lição, veremos que Paulo se refere à importância da
promessa em detrimento da Lei. Os judaizantes criam que eram a semente de
Abraão, e somente eles. Mas Paulo mostra que a semente de Abraão, para Deus, é
mais abrangente, e alcança todos os que creram e creem em Jesus pela fé, judeus
e gentios. A Lei, que é o pacto moisaico, não tem o poder de anular a promessa
de Deus feita ao patriarca 400 anos antes, pois Deus não voltou atrás em sua
promessa.
1 -. O PACTO DE DEUS ANTERIOR À LEI
1. A Lei não invalida o testamento. Paulo se vale de uma
linguagem jurídica para mostrar aos gálatas a importância das promessas de
Deus. Aqui, ele apresenta uma contraposição entre a promessa e uma lei. Deus
fez promessas a Abraão, e destacamos a de que ele seria pai de uma grande
nação. Pelo que vemos ao longo da revelação divina, com base em Gênesis 12.3:
“em ti serão benditas todas as famílias da terra”, o alcance da promessa divina
a Abraão ia além da sua semente física. Deus fez um pacto com Abraão, e esse
pacto não seria revogado pela lei de Moisés.
Na língua grega há duas expressões para a palavra “aliança”.
A primeira é syntheke, “colocar junto”, onde um pacto é feito entre partes
iguais, com direitos iguais de discutir o acordo a ser proposto. A segunda
palavra é diatheke, “colocar por”, e traz a ideia de um acordo em que as partes
são desiguais, quando uma parte coloca os termos e a outra aceita ou rejeita.
Esse é o termo que Paulo usa para explicar o pacto de Deus com Abraão. O
patriarca, como ser humano, era limitado no que poderia oferecer a Deus, exceto
pela fé que tinha no Eterno. Deus, por sua vez, prometeu bênçãos a Abraão, e
uma vez feito o pacto acerca dessa promessa, não voltaria atrás. Em sua
presciência, Deus sabia que os gentios seriam alcançados e experimentariam a
oportunidade de viver pela fé.
2. A herança vem pela promessa. Por mais que a herança possa
ser regulamentada por uma lei, ou seja, por mais que uma lei defina as regras
para que uma herança possa ser dada e recebida, a lei não tem o poder de
modificar a vontade do testador, nem de alterar o testamento depois de o
testador ter falecido. A lei pode regulamentar, mas não invalidar o testamento,
ainda mais se essa lei veio muito tempo depois de o testamento ter sido
acertado entre o doador e o herdeiro. A promessa de Deus a Abraão não poderia
ser revogada pela Lei que Deus deu ao seu povo. A herança não viria através da
Lei, mas da promessa baseada e ratificada pelo testamento entre Deus e Abraão.
3. A Lei existe por causa das transgressões. Paulo explica o
motivo da Lei existir, pois se não o fizesse, certamente os gálatas manteriam a
percepção de que seguir os preceitos mosaicos, sendo gentios, era a forma
correta de viver o Evangelho. De certa forma, a Lei de Moisés pode ser
comparada a um objeto que tem a capacidade de refletir a imagem de uma pessoa,
mas não de limpá-la. A Lei mostrava quem a pessoa era, mas não podia mudá-la.
Espelhos não mudam a aparência das pessoas que se colocam diante deles.
A Lei tinha por objetivo regular as relações entre o homem e
Deus, entre o homem e o seu próximo e o homem consigo mesmo. Era um código de
suma importância para os hebreus. Ela existia porque a natureza pecaminosa dos
filhos de Abraão era a mesma natureza pecaminosa dos demais seres humanos, e os
hebreus pelo menos teriam um referencial escrito para não pecar contra Deus.
Como já sabemos, a Lei apontava o pecado. Ela, de certa
forma, restringia a maldade, e nos é dito que ela existia por conta das
transgressões. Como sabemos, é da natureza pecaminosa do ser humano tentar
burlar regras (Rm 7.7). A Lei mostrava o pecado, e os homens testavam os
limites do alcance dela pecando contra Deus.
1. A Lei não é contra as promessas de Deus. É estranho
imaginar que Deus tenha feito um pacto com Abraão e, quatrocentos anos depois,
tenha mudado as regras, fazendo uma Lei para os descendentes de Abraão e
mudando os termos antes acertados. Em sua fidelidade, o Eterno mantém o que foi
ajustado com Abraão ao longo dos séculos.
Paulo pergunta: “Logo, a Lei é contra as promessas de Deus?
De nenhuma sorte; porque, se dada fosse uma Lei que pudesse vivificar, a
justiça, na verdade, teria sido pela Lei” (Gl 3.21). O que os judaizantes não
compreendiam é que a Lei e a promessa de Deus não eram opostas. Deus não criou
a Lei para se opor à promessa que havia feito a Abraão, mas para conduzir os
hebreus à fé em Cristo. Ela era um aio, como veremos.
2. Tudo está debaixo do pecado. Antes de falar sobre a Lei
como um tutor, Paulo fala que “a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado,
para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes” (Gl 3.22).
A salvação é uma dádiva, não uma dívida que tenha de ser paga pelo esforço
humano. Aqui entra o fator graça de Deus. Com todos colocados no mesmo padrão,
ou seja, debaixo do pecado, há uma “padronização”, ou seja, ninguém é melhor ou
superior a ninguém quando se trata de receber a salvação. Ou é pela fé ou não é
por caminho nenhum.
3. A lei como “aio”. A Lei agia como um tutor. Ela ensinava,
conduzia no caminho, mas também tolhia a liberdade. Como um batedor militar,
que conduz uma autoridade até o seu destino, o aio assim agia. Ele direciona o
comboio, faz a proteção, mas não os deixa em liberdade até que tenham chegado
ao destino esperado. A Lei de Moisés deve guiar os seus seguidores até Cristo.
Da mesma forma que um aio deveria conduzir uma criança até o destino proposto,
assim a Lei deveria fazer.
A Lei de Moisés não é adversária da graça de Deus. Na
prática, a Lei conduz os hebreus até a graça de Deus, pois as ordenanças
mosaicas apontam para uma impossibilidade de se agradar a Deus pelas obras:
“Porque a lei foi dada por Moisés: a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”
(Jo 1.17). A Lei nos prende ao pecado mostrando o que é o pecado. A liberdade
dessa prisão só pode vir por Cristo.
III. OS VERDADEIROS FILHOS DE DEUS
1. Somos filhos de Deus pela fé. O que faz com que sejamos
feitos filhos de Deus não é a observância da Lei. Não somos filhos de Deus
pelas coisas que fazemos, e sim pela fé em Jesus. É possível que resquícios da
mensagem dos judaizantes estejam sendo ensinados em nossos dias, quando se
exige que uma pessoa cumpra uma série de preceitos para que possa ser abençoada
ou salva.
2. Não há judeu nem grego. Na graça de Deus, todos somos
iguais para a salvação: pecadores. Sem fé, um hebreu não terá a salvação, e
pela fé, um gentio verá a Deus. Por isso Paulo diz que “nisto não há judeu nem
grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um
em Cristo Jesus” (Gl 3.28).
3. Somos descendentes de Abraão (Gl 3.29). Paulo não diz que
somos herdeiros de Abraão por força da Lei de Moisés, mas sim por causa da
promessa de Deus. Os judeus ainda são descendência física de Abraão, mas todos
os que creem em Jesus, pela fé, são igualmente filhos de Abraão.
Nós fomos feitos filhos de Deus por adoção, mas nem por isso
somos menos filhos de Deus. A adoção traz para nós as prerrogativas de uma
herança que nos está destinada pela fé.
CONCLUSÃO
A salvação é um presente de Deus, uma herança, que nos é
dada por intermédio da fé, que nos justifica e nos faz filhos de Deus por
adoção. Ela não é nem pode ser fruto de troca, como algumas pessoas queiram
sugerir. E a Lei de Deus não se opõe à promessa dEle, pois aceita o homem pela
fé, e esse é o padrão que Ele estabeleceu para que os homens se aproximassem
dEle. Somos filhos de Deus e descendência do patriarca Abraão pela fé.
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
sábado, 26 de julho de 2025
quinta-feira, 17 de julho de 2025
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Lição 2: O falso evangelho
“Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema.” (Gl 1.9).
Lição 2: O falso evangelho
INTRODUÇÃO
Após se apresentar como remetente da Carta aos Gálatas,
identificando-se como apóstolo da parte de Deus, e mencionando que Jesus Cristo
ressuscitou dentre os mortos, Paulo passa diretamente ao assunto que pretende
tratar com os irmãos: a incursão de ideias e práticas judaizantes na comunidade
dos santos, e as consequências dessas ideias na vida dos irmãos.
I. UM APÓSTOLO SURPRESO
1. Paulo se mostra impressionado. O apóstolo Paulo se
declara surpreso com os irmãos gálatas. Os leitores dessa Carta eram pessoas
que já haviam aceitado a Jesus. Já conheciam o Evangelho e já haviam
experimentado o arrependimento e o perdão dos pecados, mas estavam trilhando
uma rota não planejada por Deus. Ele escreve “Maravilho-me de que tão depressa
passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho” (Gl
1.6). O espanto de Paulo não foi advindo de milagres acontecendo naquelas igrejas,
ou de conversões de pagãos ou mesmo por pessoas estarem sendo cheias do
Espírito. O que deixou Paulo espantado foi não só o fato de os gálatas
atentarem para um Evangelho diferente do que ele havia pregado, mas também pelo
fato de que esse “novo evangelho” incentivava os gálatas a desconsiderarem a
graça e tentarem, por meio de obras, pagar uma dívida que eles jamais
quitariam.
Paulo destaca a expressão “tão depressa” para marcar não só
a inconstância dos gálatas, mas também o pouco tempo que levaram para ser
convencidos de uma outra doutrina. Não deve nos espantar que entre o povo de
Deus haja pessoas que sejam atraídas por novos ensinos, e que com facilidade se
deixem levar por doutrinas que nada tem de respaldo nas Escrituras. A pouca
firmeza no que tinham aprendido e a incapacidade de julgarem uma doutrina como
errada nos serve de exemplo para que nos firmemos no exercício da verdade.
2. Da graça para a lei. A surpresa de Paulo se dá por causa
da mudança que os gálatas fizeram, de passarem da graça de Deus para a Lei de
Moisés. Como isso se deu? Eles receberam um ensino em que, para que pudessem
realmente ser salvos, deveriam ser circuncidados e seguir a lei dada aos
hebreus por Deus. Bastou o apóstolo se afastar do convívio daqueles irmãos que
logo eles deram crédito a outra pregação diferente da que haviam recebido
originalmente.
Como veremos, Paulo deixa implícito que a lei e a graça, em
que pese serem expressões que remontem a história de Israel e o plano da
Salvação, possuem atribuições diferentes.
3. Outro Evangelho. A palavra “outro”, na língua portuguesa,
é um pronome indefinido utilizado de forma ampla, para designar algo ou alguma
coisa que seja da mesma natureza, que seja semelhante, ou que seja de outra
natureza. Para definir o exato significado, precisaremos saber o contexto em
que essa palavra está sendo usada. Na língua grega, a palavra “outro” tem duas
percepções distintas, advindas igualmente de duas palavras apontadas: allós,
que significa “outro da mesma espécie”, e heteros, “outro de outra espécie”.
Enquanto na primeira designação a opção apresentada é a de um objeto ou ser da
mesma espécie, com possíveis variações, tais como um tigre e um leão, que mesmo
sendo animais diferentes entre si, são felinos. Por sua vez, a palavra heteros,
“outro” de outra espécie, tais como um cão e um gato. São seres criados, mas
diferentes entre si por serem de espécies diferentes. Por isso Paulo comenta:
“[...] para outro evangelho, o qual não é outro” (Gl 1.6,7).
É possível que hoje sintamos a mesma surpresa com que o
apóstolo se deparou ao saber da notícia da mudança daqueles irmãos. Mas mesmo
em nossos dias, é possível ver irmãos na fé sendo convencidos por doutrinas que
não foram ensinadas com a correta interpretação dos textos bíblicos, dando
ouvidos a instruções que buscam acrescentar à Palavra o que ela não diz. Os
gálatas tinham sido evangelizados e ensinados por Paulo, e não perceberam que a
mensagem dos judaizantes era um falso evangelho. Eles não negaram, oficialmente,
o sacrifício de Jesus, mas acrescentaram argumentos que acharam guarida no
pensamento daquelas igrejas. Era uma mensagem aparentemente piedosa, mas que
negava a eficácia do Evangelho. Por meio desse ensino, a graça de Deus estava
sendo questionada.
“Falsos professores
tinham vindo à Galácia para tentar persuadir os gálatas a rejeitar o
ensinamento de Paulo e aceitar ‘outro evangelho.’ A sua mensagem ensinava que a
salvação espiritual e um relacionamento correto com Deus envolviam não apenas a
fé em Cristo, mas também a integração com a fé dos judeus, por meio da
circuncisão (5.2; veja Rm 2.29, nota: Fp 3.2), da obediência à lei (3.5) e da
observância aos dias santos dos judeus (4.10). (1) A Bíblia afirma claramente
que há uma única mensagem verdadeira de salvação espiritual ‘o evangelho de
Cristo’ (v.7).
Ele nos vem pela ‘revelação de Jesus Cristo’
(v.12) e pela inspiração do Espírito Santo. Este evangelho (as ‘boas-novas’ é a
verdadeira mensagem a respeito de Jesus) é definido e revelado na Bíblia, a
Palavra escrita de Deus. (2) Quaisquer ensinamentos, crenças ou ideias que se
originem de pessoas, igrejas ou tradições e não estejam expressos ou implícitos
da Palavra de Deus não fazem parte da verdadeira mensagem e não podem ser
incluídos no evangelho de Cristo (v.11). Mesclar essas noções e filosofias criadas
pelo homem com a mensagem original de Jesus é ‘transtornar o evangelho de
Cristo’ (v.7).” (Bíblia de Estudo
Pentecostal para Jovens. Rio de Janeiro: CPAD, 2023,
p.1624).
II. O ANÁTEMA
1. A inquietação dos gálatas. Um falso ensino tem a
capacidade de deixar as pessoas alvoroçadas e inquietas. Paulo usa as palavras
“vos inquietam e querem transtornar” (v.7) como um indicativo de que, enquanto
seus leitores liam a Carta, provavelmente havia judaizantes entre eles. Um
outro detalhe é que a mensagem deles deixava os gálatas inquietos, em vez de
descansarem na graça de Deus, eles passaram a realizar obras da Lei, sendo eles
mesmos, gentios. Uma mensagem que alvoroça os crentes deve ser analisada com
bastante cautela.
2. Ainda que um anjo do céu. Os anjos são conhecidos na
Palavra de Deus como mensageiros do Eterno para tratar de assuntos referentes
aos seres humanos. Eles apareceram, no Antigo Testamento, a Abraão, a Josué, a
Gideão, aos pais de Sansão e a Isaías.
No Novo Testamento, apareceram à Maria, ao pai de João
Batista, a Pedro e a Cornélio entre outros. A presença deles geralmente, nas
Escrituras, é acompanhada de uma mensagem. Paulo mesmo recebeu a visita de um
anjo quando estava indo a Roma em um navio que estava afundando (At 27.23).
Cornélio recebeu a visita de um anjo, cuja mensagem foi: “As tuas orações e as
tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus” (At 10.4). “Procure por
Pedro” (At 10.5). O anjo não falou de Jesus ou do Evangelho a Cornélio, mas lhe
orientou a respeito de quem deveria chamar para ouvir as Boas-Novas.
Paulo deixa expresso que mesmo que um anjo, identificando-se
como sendo enviado por Deus, venha apresentar uma mensagem diferente da sua,
que seja considerado maldito. O apóstolo não teme usar esse adjetivo, pois sabe
que a pureza do Evangelho está em jogo naquelas igrejas.
3. Anátema. A palavra “anátema” é oriunda do hebraico herem,
e pode ter dois sentidos: algo devotado a uma divindade, e ao mesmo tempo
excluído da utilização humana, como o relatado em Josué 6.17, quando os
despojos de Jericó deveriam ser separados para Deus, não podendo ser usados
pelos israelitas, ordem que não foi seguido por Acã. Esse anátema foi tão sério
que Acã e sua família pagaram o preço da ganância com a vida. Mas o segundo
sentido é mais radical, pois representa anathematizo, colocar debaixo de uma
maldição. Mesmo que um anjo viesse até eles e lhes ensinasse um outro
Evangelho, que fosse maldito e condenado.
III. AGRADAR AOS HOMENS OU A DEUS
1. Repetindo a advertência. Como o assunto é muito sério,
Paulo repete a observação. Não poderia haver dúvidas sobre a força das palavras
paulinas, pois o assunto era grave. O apóstolo menciona uma segunda vez essa
mesma condenação no versículo 9. A repetição desses dizeres nos mostra o quão
sério é deturpar os ensinos da Palavra de Deus. O “evangelho” dos judaizantes
estava afastando os irmãos do verdadeiro e os encaminhando para uma vida de
legalismo, onde o homem acredita que pode ajudar Deus na salvação ou pode ele
mesmo ser o seu Salvador.
2. O que agrada aos homens. Paulo não se preocupa em falar
palavras lisonjeiras para deixar seus leitores confortáveis diante do que
estavam fazendo. Ele não estava tratando a respeito de boas práticas ou de um
discurso protocolar, cabível em certas ocasiões mais formais. Ele estava
tratando a respeito da salvação da alma dos gálatas. Os judaizantes bajulavam
os gentios, e com palavras doces os desviavam dos caminhos do Senhor. As
palavras de Paulo poderiam soar como amargas, mas era o remédio que os gálatas
deveriam tomar.
3. O que agrada a Deus. Como veremos, a preocupação de Paulo
é agradar ao Senhor, por isso escreve a Carta aos Gálatas. Se fosse para
agradar aos homens, ele poderia deixar a situação nas igrejas da Galácia correr
sem qualquer interferência. O tempo certamente iria mudar o cenário, ou
pioraria a situação. Mas ele entendeu que deveria ter uma participação ativa no
resgate dos gálatas. Paulo nem estava na Galácia, e poderia deixar o problema
de lado, mas resolveu tratar o assunto a fim de que os irmãos não se perdessem.
A obediência ao verdadeiro Evangelho agrada a Deus.
Preservar as doutrinas bíblicas, de Deus, que recebemos, estudar e estar
atentos para discernir quando um falso ensino tenta entrar na congregação,
também agrada a Deus. Viver pela fé e não pelas nossas próprias obras, também
agrada a Deus.
Algo que deve ser observado é que a deturpação dos falsos
mestres, e por sua vez, o que desagradava a Deus, é que, na prática, os gálatas
queriam “devolver” a Deus o favor, o presente que Ele lhes dera. Ele lhes
entregara a Salvação pela graça, e eles queriam retribuir o favor divino por
meio de uma vida que se baseava em obras humanas.
CONCLUSÃO
Nesta segunda lição, vimos que Paulo começa a apontar aos
seus leitores o caminho que eles estavam trilhando: um caminho paralelo ao
caminho do Evangelho. Eles estavam ouvindo uma mensagem doutrinária errada e
não tiveram discernimento. Eram ensinos que estavam em desacordo com o que
haviam aprendido. Paulo os exorta que ainda que um ser angelical viesse do céu
com uma mensagem parecida, eles não deveriam aceitar. Precisamos ter cuidado
com ventos de doutrina que se aproximam de nossas congregações, tentando
afastar os irmãos da verdadeira prática da Palavra de Deus.
