Introdução
Texto de Referência: João
8.4-11
1 - O Adultério: Um pecado com Consequências e Feridas Profundas
"O Casamento deve ser honrado por todos; e o leito
conjugal, mantido puro. Porque Deus julgará os imorais e os adúlteros"
(Hebreus 13.4)
O "leito conjugal" é uma referência à intimidade
sexual dentro do casamento. A pureza desse leito significa que a relação sexual
deve ser exclusiva entre o marido e a mulher. Essa exclusividade protege a
união e aprofunda a confiança e a intimidade do casal. A infidelidade, em
qualquer de suas formas, contamina essa pureza.
O fato de o adultério ser mencionado ao lado da imoralidade
sexual mostra que o autor de Hebreus o coloca na mesma categoria de pecado
grave. Essa passagem defende a santidade e a exclusividade do casamento, e
qualquer ato que viole essa aliança é considerado impuro e, portanto,
pecaminoso.
"Deus julgará os imorais e os adúlteros": A
palavra "julgará" aqui não se refere a um simples julgamento humano,
mas sim a um juízo divino.
"Mas o que comete adultério com uma mulher é falto de
entendimento; aquele que faz isso destrói a própria alma" (Pv 6:32)
O livro de Provérbios, em seu capítulo 6, dedica uma seção
inteira (versículos 20-35) para advertir contra a imoralidade sexual e o
adultério. O Versículo acima, em particular, resume a gravidade desse pecado de
forma contundente. Essa passagem revela dois pontos cruciais sobre o adultério:
1. É um Ato de Insensatez
A expressão "falto de entendimento" significa que
a pessoa age de forma tola e irracional. O adultério é um pecado que promete
prazer momentâneo, mas leva à destruição duradoura. O autor de Provérbios
compara o adúltero a alguém que, em vez de ser sábio e prever as consequências,
age por impulso e com total falta de discernimento. Ele está trocando algo de
valor inestimável (a honra, a paz, a família) por um prazer passageiro.
2. É Autodestrutivo
A frase "destrói a própria alma" é a parte mais
forte do versículo. isso vai muito além de perder a reputação ou a confiança de
outras pessoas. A palavra hebraica para "destruir" é Shâchath que
significa "corromper", "arruinar" ou "estragar".
O adultério, portanto, não é apenas um pecado contra o cônjuge, mas um ato que
causa um dano profundo e permanente no próprio ser do adúltero. Ele corrompe o
seu caráter e compromete sua vida espiritual. A destruição aqui tem várias
camadas:
(a) Destruição da reputação
O adúltero sobre "vergonha e humilhação que jamais se
apagará" (Pv 6:33)
(b) Destruição dos relacionamentos
O pecado pode levar a um divórcio, à perda da família e à
ira do cônjuge traído, que "não perdoará no dia da vingança" (Pv
6:34-35)
(c) Destruição da vida espiritual
Ao se afastar da pureza e dos caminhos de Deus, o adúltero
causa uma separação entre ele e o Criador, ponto em risco a sua salvação.
Adultério no Antigo Testamento
"Se um homem for encontrado deitado com uma mulher que
tem marido, ambos, o homem e a mulher, deverão morrer. Desse modo, vocês
eliminarão o mal do meio de Israel" (Dt 22:22).
O pecado no Antigo Testamento era tratado com a pena de
morte. Essa lei era parte do código mosaico, que visava estabelecer e manter a
santidade e a pureza da nação de Israel, que era considerada o povo escolhido
de Deus. A penalidade rigorosa para o adultério tinha múltiplos propósitos:
Proteger a santidade do casamento, Preservar a pureza da comunidade e Garantir
a legitimidade da linhagem.
Adultério nos dias Atuais
Biblicamente, o adultério continua sendo um pecado diante de
Deus e, na maioria das culturas, é visto como uma séria traição e uma ofensa
moral e social.
A visão de Deus sobre o adultério não mudou. Ela é
consistente em toda a Bíblia, do Antigo ao Novo Testamento.
1.1 - Reconhecendo o Adultério
A palavra adultério vem do latim adulterium, que significa
"infidelidade" ou "falsificação". A definição mais comum e
tradicional para adultério é a relação sexual voluntária de uma pessoas casada
com alguém que não é seu cônjuge.
É um termo usado para descrever a quebra da fidelidade e dos
votos de exclusividade dentro do casamento.
Moicheia
A palavra adultério, do grego Moicheia, refere à
infidelidade sexual de uma pessoa casada. Quando a Bíblia fala sobre o ato de
um homem casado se envolver com uma mulher que não é sua esposa, ou vice-versa,
a palavra usada é Moicheia ou seu verbo correspondente, Moichao. O termo
carrega o peso da quebra de uma aliança matrimonial sagrada e é o termo mais
exato para o que entendemos como adultério.
Porneia
Essa palavra grega tem significado muito mais amplo e
genérico, referindo-se a qualquer tipo de imoralidade sexual. Porneia abrange
uma gama de pecados, incluindo fornicação (sexo antes do casamento),
prostituição, incesto, homossexualidade e, em alguns contextos, também pode
incluir o adultério.
1.2 - O Adultério afronta o Criador
Como já vimos anteriormente, tanto no AT como no NT, o
adultério é um pecado que afronta ao nosso Deus.
Jesus não diminuiu a seriedade do adultério. Pelo contrário,
Ele a aprofundou. Em Mateus 5, Ele ensinou que o pecado não está apenas no ato
físico, mas começa no coração. Ele disse: "Eu, porém, vos digo que
qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura no coração, já cometeu
adultério com ela em seu coração" (Mt 5:28).
O apóstolo Paulo ensinou uma verdade muito clara e séria
sobre a salvação e o Reino de Deus: "Não erreis: nem os devassos, nem os
idólatras, nem os adúlteros (...) herdarão o Reino de Deus" (1Co 6:9-10).
A principal lição aqui é que a prática contínua e não
arrependida desses pecados, incluindo o adultério, é incompatível com a vida
cristã e com a participação no Reino de Deus.
Paulo coloca os adúlteros na mesma lista dos devassos e
idólatras para mostrar que o pecado de adultério não é um pecado menor. Ele tem
consequências espirituais eternas e impede a pessoa de herdar o Reino de Deus.
A herança aqui não é apenas um lugar no céu, mas a plena participação no plano
de salvação de Deus.
Por que o Pecado de Adultério afronta ao Criador ?
O adultério é considerado uma afronta ao Criador por ser uma
violação direta de princípios e alianças que Ele mesmo estabeleceu. Mais do que
uma simples traição a uma pessoa, é uma quebra de promessa feitas a Deus e uma
profanação de algo que Ele considera sagrado. Afronta a Deus porque :
1. Viola a Aliança do Casamento (Gn 2:24)
2. Desrespeita os Mandamentos Divinos (Êx 20:14)
3. Contamina o Templo do Espírito Santo (1Co 6:19)
4. Demonstra Falta de sabedoria Divina (Pv 6:32)
1.3 - O Sexo foi criado por Deus
"Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e
apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne" (Gn 2:24)
Aqui, Deus instituiu o casamento assegurando o
relacionamento sexual do casal. O sexo é a expressão mais profunda da união de
"uma só carne" que Deus designou para o casamento. O homem e a mulher
se unem para se tornar uma só carne. O ato sexual não é apenas uma união
física; é um ato que reflete a conexão emocional, espiritual e mental do casal.
2 - Perdoador ou Acusador?
"E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher
apanhada em adultério; e, pondo-a no meio" (João 8:3)
Essa passagem faz parte de um dos episódios mais conhecidos
e impactantes do Evangelho: a história da mulher apanhada em adultério.
O capítulo 8 de João começa com Jesus no Templo de
Jerusalém, ensinando o povo. Ele estava sentado, e uma multidão se reunia para
ouvi-lo. De repente, a cena é interrompida pela chegada de um grupo de escribas
e fariseus que trazem uma mulher.
O objetivo dos escribas e fariseus não era fazer justiça de
acordo com a lei de Moisés. A lei, na verdade, determinava que tanto o homem
quanto a mulher deveriam ser apedrejados. O fato de terem trazido apenas a
mulher já revela a sua hipocrisia e parcialidade.
Eles estavam usando a mulher como isca para prender Jesus em
uma armadilha, busca um motivo para acusá-lo.
Satanás, o Acusador
A Bíblia descreve Satanás como o acusador e também sugere
que ele usa as pessoas para espalhar a divisão através de acusações.
A Bíblia se refere a Satanás com vários nomes, e um dos mais
significativos é o de "acusador". Essa característica é claramente
mencionada em passagens como Apocalipse 12:10, que o descreve como "o
acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite diante do
nosso Deus".
Paulo faz uma advertência séria e direta à igreja em Roma.
Paulo instrui a comunidade a identificar e reconhecer as pessoas que estão
causando divisões e escândalos: "Rogo-vos, irmãos, que tomeis nota
daqueles que causam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que
aprendestes; e que vos afasteis deles" (Rm 16:17).
2.1 - A Malícia dos Acusadores
"E, na lei, nos ordenou Moisés que as tais sejam
apedrejadas. Tu, pois, que dizes? (João 8:5)
Um grupo de escribas e fariseus, trazem um mulher pega em
adultério até Jesus, não para que fosse julgada de acordo com a lei, mas sim
para armar uma cilada para Jesus. A malícia deles se manifesta de forma clara
em pelo menos três pontos:
1. A Seletividade e o Conhecimento da Lei
Os acusadores citam a lei de Moisés de Levítico 20:10 e
Deuteronômio 22:22, que de fato prescrevia a pena de morte para o adultério. No
entanto, a lei exigia que ambos os adúlteros fossem levados para o julgamento:
o homem e a mulher. O fato de eles terem trazidos apenas a mulher demonstra que
a intenção não era aplicar a lei de maneira justa, mas apenas usar a situação
para manipular a Jesus. Onde estava o homem? O silêncio deles sobre isso já
revela a má-fé.
2. O motivo Oculto
O versículo 6 de João 8 revela a verdadeira intenção por
trás da pergunta: "isso diziam eles, tentando-o, para terem de que o
acusar". Eles colocaram Jesus em um dilema:
(a) Se Jesus dissesse "SIM" para o apedrejamento,
ele iria contra a sua própria mensagem de graça e perdão. Além disso, estaria
se colocando contra a autoridade romana, que na época detinha o poder de
executar a pena de morte.
(b) Se Jesus dissesse "NÃO" para o apedrejamento,
eles poderiam acusá-lo de desrespeitar a lei de Moisés, o que era um crime
grave na época.
Perceba que o objetivo deles não era sobre a justiça e lei,
mas sobre encontrar uma falha em Jesus para desacreditá-lo diante do povo e das
autoridades. A mulher era apenas um peça desse jogo.
3. A Falta de Misericórdia e Humanidade
A forma como eles tratam a mulher demonstra uma total falta
de compaixão. Eles arrastam aquela mulher para o meio da multidão, a expõem
publicamente e a usam como um objeto. Não se preocupam com a sua dignidade ou
sua vida. O foco está apenas em seu próprio plano de derrubar Jesus.
2.2 - Jesus ignora os Acusadores
"E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam
apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que
tivesses de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na
terra" (João 8:5-6)
Esse é um dos momentos mais enigmáticos e estudados dos
Evangelhos. Embora a Bíblia não revele o que Jesus escreveu, o ato em si é
carregado de significado e pode ser interpretado de diversas formas. É certo
que nesta cena, Jesus não ignora os escribas e fariseus no sentido de desprezo,
Ele não queria entrar no jogo de
armadilha deles; o que Jesus fez foi ignorar a pressão deles para mostrar que
não estava sujeito à manipulação.
Em seus ensinamentos e ações, Jesus nunca demonstrou ignorar
ou desprezar pessoas ou grupos por causa de sua condição social, religiosa,
étnica, moral ou de saúde. É importante notar a diferença entre ignorar
(desprezar) e criticar. Embora Jesus não desprezasse as pessoas, ele
frequentemente repreendia com dureza a hipocrisia e o orgulho dos líderes
religiosos, como os fariseus e escribas. Ele os criticava porque eles criavam
regras pesadas para as pessoas, mas não as seguiam, e por se preocuparem mais com
as aparências e rituais externos do que a justiça, a misericórdia e a
fidelidade a Deus.
Portanto, ao se inclinar e escrever no chão, Jesus cria um
silêncio que desarma a pressão e desloca o foco da acusação. Aqui estão algumas
das interpretações mais aceitas sobre esse ato de Jesus :
1. Uma Pausa para Desarmar a Armadilha
Os acusadores vieram com um plano bem definido, e a pressão
era enorme. Ao se inclinar, Jesus criou uma pausa dramática. Ele quebrou a
tensão e inverteu a dinâmica do poder. Em vez de reagir impulsivamente, Ele
forçou os escribas e fariseus a esperar. Esse silêncio inesperado e o ato
incomum de escrever no chão mostraram que Ele não estava intimidado pela
acusação. Foi uma forma de tomar o controle da situação.
2. Cumprimento de Profecias
Alguns teólogos sugerem que Jesus estava se referindo a uma
passagem do Antigo Testamento, mas especificamente: "Ó Senhor, esperança
de Israel, todos aqueles que te abandonam, serão envergonhados; aqueles que se
desviam de mim serão escritos no pó, porque abandonaram o Senhor, a fonte de
águas vivas" (Jeremias 17:13).
De acordo com essa interpretação, ao escrever no pó, Jesus
estaria simbolicamente "escrevendo" a culpa e a hipocrisia dos
acusadores, lembrando-os de que eles, que O haviam rejeitado, seriam julgados
por suas próprias ações. A própria lei que eles usavam para condenar a mulher
seria a mesma que os condenaria.
3. Evidência da Divindade
Outra interpretação fascinante é que o ato de escrever na
terra ecoa a imagem de Deus escrevendo a Lei com o próprio dedo nas tábuas de
pedra no Monte Sinai (Êxodo 31:18). Ao fazer isso, Jesus estava se
identificando sutilmente com o próprio legislador, mostrando que Ele tinha
autoridade para interpretar e até mesmo "re-escrever" a lei. Ele era
o fonte da lei, não apenas alguém sujeito a ela.
4. Uma Declaração de Misericórdia e Graça
Finalmente, o ato de escrever na terra pode ser visto como
um reflexo de misericórdia. Em vez de confrontá-lo imediatamente, Jesus deu aos
acusadores um momento para reconsiderar suas próprias vidas.
2.3 - O Advogado Fiel
Diante do dilema em que os escribas e fariseus colocaram
Jesus, Ele se inclina e escreve na terra, e proferi a famosa frase "Aquele
que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra contra
ela" (João 8:7), expondo a hipocrisia e a malícia de seus corações. Eles
não eram justos, mas cheios de pecado, e o apedrejamento da mulher serviria
apenas como uma desculpa para esconder suas próprias falhas e injustiças.
Atuando como um Advogado Fiel, Jesus os estava desafiando a
olhar para suas próprias falhas antes de julgar a mulher. Quando finalmente se
levantou, Sua resposta foi direta e devastadora: "Aquele que dentre vós
está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra" (João 8:7). A
escrita no chão serviu de prefácio para essa declaração poderosa, que expôs a
hipocrisia deles e os forçou a se retirarem.
3 - Jesus nos Ensina a Perdoar
3.1 - Perdão, uma Expressão de Amor
"Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te
condenou?" (João 8:11)
Esse versículo conclui a história da mulher apanhada em
adultério, é uma das mais poderosas expressões do perdão de Jesus e, por
extensão, do amor de Deus. A resposta é um ressonante "sim". Jesus
não apenas perdoou a mulher, mas fez isso de maneira que demonstra a natureza
do amor divino: que é incondicional, redentor e libertador. A cena se desenrola
assim:
1. A partida dos acusadores
Após a desafiadora frase de Jesus, "Aquele que dentre
vós está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra" os acusadores
se retiram, um a um. Isso deixa Jesus sozinho com a mulher, que antes estava no
centro de um círculo de julgamento e ódio.
2. O diálogo de Jesus
"E, endireitando-se Jesus e não vendo ninguém mais do
que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te
condenou?" (João 8:10)
Jesus questiona a mulher, não para humilhá-la, mas para que
ela perceba sua própria situação. Ela Responde : "Ninguém, Senhor"
(João 8:11).
3.2 - Perdoados e Perdoando
"... Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques
mais." (João 8:11)
Essa declaração de Jesus é uma manifestação de amor de
diversas maneiras:
1. É um Perdão Incondicional
Jesus não impôs uma penitência ou exigiu que ela
"ganhasse" o perdão. Ele simplesmente o concedeu. Ele viu a mulher,
não seu pecado. Seu amor foi a resposta à sua vulnerabilidade e à sua situação
desesperadora.
2. É um Perdão Redentor
O perdão de Jesus não é um aval para o pecado. A frase
"vai, e não peques mais" mostra que o perdão não anula a seriedade da
transgressão, mas oferece uma oportunidade de mudança e redenção. O amor de
Jesus não a deixou onde ela estava, mas a empoderou para um novo começo. Ele a
libertou do seu passado para que ela pudesse construir um futuro diferente.
3. É um Perdão que Liberta
O perdão de Jesus rompe as cadeias do medo, da vergonha e da
condenação. Ele a libertou do julgamento cruel dos outros e do seu próprio peso
de culpa. O amor expresso neste perdão não é apenas um sentimento, mas uma
força transformadora que devolve a dignidade.
3.3 - Compreendendo o Perdão
A história dessa mulher relatada em João 8 mostra que Jesus
aniquila o plano malicioso dos escribas e fariseus, estende o perdão a mulher
adúltera sem descumprir a Lei e nos ensina a compreender o Perdão como um ato
de misericórdia e compaixão; se recebemos do Senhor o perdão, devemos estender
esse ato aos nossos semelhantes.
Comentário
Pr. Éder Tomé

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